eu não escrevo sobre amor

Eu sempre quis ser uma poeta apaixonada que redige seus versos em nome do belo e das coincidências da vida. Aqueles os quais os versos eventualmente são utilizados pelos amantes seja em fotos em redes sociais, seja, de maneira mais antiquada, em cartas de amor com perfume feminino. A verdade é que por mais que todas essas palavras me toquem e me emocionem mas é muito difícil para mim produzi-las.

Não que eu não ame alguém, coisa que eu faço de maneira consideravelmente profunda e com uma história digna de roteiro de novela inclusive, mas é que as palavras que residem no meu peito não são boas o suficiente para construir uma poesia. Seja porque meus sentimentos são muito meus mas eventualmente eu os dívida de maneira individual com pessoas que eu me identifico, seja porque  para mim o amor é prolixo demais para caber em um amontoado de palavras.

Mas eu admiro quem consegue escrever sobre o amor e suas tragédias e seus merecimentos. Admiro também aqueles que sentem de maneira tão profunda que o sentimento e a vida de misturam e o amor ali existe de um jeito tão singular que ele não precisa ser falado, porque é sentido por todos. Admiro quem amou tanto que não conseguiu terminar amando ninguém e por fim escreve sobre isso para relembrar de suas antigas aventuras. Admiro quem ainda ama e transforma a vida numa poesia de retratos bonitos na internet.

Mas eu vivo assim na minha caixinha e encontrei alguém que gosta de viver dentro dela comigo. E acredito que por hora é o suficiente.

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a vontade de cada um

Terminei ‘Admirável mundo novo‘ com o mesmo vazio que distopias no geral colocam em mim. Sempre que encaro as situações onde a realidade se choca com a fantasia e algumas frases parecem ser escritas para cada um de nós eu me faço uma reflexão sobre todas as escolhas que eu fiz na minha vida. Com Aldous Huxley não foi diferente.

Na sociedade distópica aqui desenvolvida temos pessoas criadas em laboratórios e condicionadas a suas vidas desde sua concepção. Os embriões aqui são selecionados e multiplicados inúmeras vezes afim de criar exércitos de pessoas capazes de desempenhar suas funções com tamanha facilidade a ponta de essa função se tornar quase prazerosa. Temos também seres coletivos estimulados desde cedo a serem seres sexuais e se portarem como um bem comum. Aqui o ato sexual é quase um status e todos são estimulados a terem muitos parceiros sexuais.

E temos um selvagem que leu Shakespare.

Os opostos desse livro são extremos que carregam em si algumas perguntas que, levando em consideração a conformidade de cada um, nos coloca em posição defensiva. Uma sociedade condicionada e com prazeres superestimulados é uma sociedade estável, onde os pontos fora da curva são facilmente controlados. Uma sociedade livre carrega consigo o estima do amor, da paixão e da tragédia, sentimentos esses que não garante de forma alguma a estabilidade proposta pela primeira mas lhe garantem identidade e criatividade.

É interessante como em toda distopia existe sempre essa necessidade de controlar as pessoas de maneira direta de alguma forma, e com figuras sempre autoritárias, estimular e manter esse controle. Por vezes é difícil até perceber como todos esses elementos de controle, em suma, funcionam de maneira intríseca e fluida em nossa sociedade. Por isso achei bem pertinente quando o Aldous coloca essa sociedade aqui como uma condição, mas lá no fundo quase que uma opção, os induvíduos que não se adaptam aqui, pela falta de necessidade de recondicionamento, quando o ‘soma’ os falha, são convidados a habitar regiões onde esse tipo de comportamente não interferirá na ordem estabelecidada.

A questão é: mesmo condicionados somos capazes de romper essas barreiras e enxergar o outro lado do rio, mas até que ponto realmente desejamos beber dessa água e até que ponto esse estado de negação é mais confortável?

Por fim “um estado totalitário verdadeiramente eficiente seria aquele em que os chefes políticos de um Poder Executivo todo-poderoso e seu exército de administradores controlassem uma população de escravos que não tivesem de ser coagidos porque amariam sua servidão…’.

E você? Já defendeu com unhas e dentes sua servidão hoje?

o que nos torna humanos

Comprei usado nessa semana o livro ‘O homem bicentenário‘ do Asimov e, como já era de se esperar, um livrão. As discussões filosóficas acerca do que constrói nossa humanidade usando a história do robô como ferramenta são construídas de maneira ímpar e profunda. Enquanto eu lia não consegui deixar de pensar sobre o penúltimo conto da coletânea ‘Eu, robô‘ do mesmo autor. O conto ‘Evidencia’ coloca em prova a humanidade de um político daquela era (inclusive existe uma personagem em comum nos contos) e nos deixa acompanhar a Dr. Calvin em sua busca pela verdade.

Antes de mais nada é importante frisar que eu recomendo absolutamente tudo publicado com o nome do Asimov mesmo que eu ainda não tenha lido tudo de fato, no entanto sua capacidade de usar histórias essencialmente simples para colocar em ênfase questionamentos mais profundos é sem dúvida uma de suas melhores características. Quando ele usa robôs nas alegorias de suas histórias ou desavenças políticas espaciais, com um pouquinho de tato é possível perceber como ele se ateve aos detalhes e como essas histórias não vão sair da sua cabeça com a velocidade que você deseja.

Voltando ao nosso ponto de partida, nos dois contos já citado o que é um ‘ser humano’ é colocado em xeque, não só pelo enredo em si, mas também pelo questionamentos que os personagens constroem ao longo das narrativas. Aqui a única diferença é o ponto de partida. O Andrew, nosso bicentenário, é um robô que quer a todo custo o status de ser vivo. Em evidência nossa psicóloga precisa afirmar se um homem é ou não é um robô.

Na minha opinião o ponto crucial que une essas duas histórias são os questionamentos sobre as 3 leis da robótica. Andrew não pode ser um ser humano porque a priori ele é um dispositivo que segue três leis fundamentais. O adversário político por sua por ser muito correto com toda certeza é um robô pois só isso explicaria o fato de ele não falha, nunca. No entanto as discussões de ambos os personagens quando questionados sobre isso são palavras bem pontuais. Nunca citação indireta, baseando-se no que eu lembro de cada uma das obras, temos como resposta o questionamento sobre nossas próprias leis. Não teria o ser humano leis universais e intrínsecas a nós, leis que nos movem e que nos fazem agir como agimos? E não seriam essas leias parte do nosso código fonte, a princípio inalteráveis mas com o passar do tempo mutáveis e mais maleáveis? Não seria as 3 leis da robótica o instinto de sobrevivência descrito e interpretado?

Em ambas as histórias as discussões são mais profundas que isso, por isso, leia asimov. Mas, nos dois casos eu li a última palavra assimilando tudo aquilo que me torna o humana. Tudo aquilo que biologicamente, fisicamente e psicologicamente me tornam um ser humano. E você começa a se questionar quantas leis da humanidade você quebrou ao longo da vida e como você se sente a respeito disso.

Isso é o começo da minha série pessoal de: coisas que Asimov jogou na minha cara e eventualmente eu vou deixar de dormir pensando nisso.

incômodos

Peguei emprestado o livro ‘Memórias de minhas putas triste’ do Gabriel García Márquez e eu sinto que existem algumas coisas sobre esse livro que precisam ser ditas. Ele é um livro curto 127 páginas de reflexões de um velho depois de comemorar seu aniversário de 90 anos. Entre essas reflexões ele decide que quer de presente de aniversário ter relações sexuais com um moça virgem. E é aqui que a merda começa.

Como eu já esperava esse livro é tão bem escrito que até as palavras mais difíceis parecem fluidas e concisas no meio do texto. O tom rebuscado das palavras no entanto não diminui minha vontade irracional de jogar o livro longe todas as vezes que ele usa da narrativa para contar sobre seus encontros com essa moça, pela qual ele SE APAIXONA. Eu fiquei muito incomodada lendo esse livro, muito porque eu terminei ele mesmo com esse incômodo e eu sei que eu só terminei por conta da precisão de suas palavras.

Quando eu livro trata de outros assuntos ou se você ignorar que a pessoa que o velho ama tem 14 anos o livro é realmente muito bom. Mas como mulher eu não consegui deixar esse fato de lado e eu passei o livro inteiro entre altos de baixos e sentimentos extremamente conflitantes. Eu odiava o livro pelo abuso que ele apresenta, mas o peso da narrativa era tão profundo que eu não conseguia largar aquilo, não só não larguei como li tudo em um dia.

Tudo isso me fez pensar em títulos. Boa parte de mim sabe que eu não larguei esse livro pelo GABO e quanto mais eu penso nisso mais eu me sinto culpada por ter gostado pelo menos um pouco desse livro mesmo com esse problema gigante que foi descrito ali em cima. É meio problemática essa profunda admiração pelos autores clássicos e como isso tem um efeito bem profundo na nossa capacidade de criticar coisas de pessoas importantes. O meu problema aqui não é o assunto, mas o fato de não existir crítica NENHUMA, mas sim uma romantização de toda a situação com uma prosa fenomenal. Não tem como ler tudo aquilo e não achar pelo menos problemático que esse fato seja pouco discutido entre as pessoas que me fizeram querer lê-lo.

how to raise a child

Primeiro que não existe regra e esse texto não é uma cagação de regra, é a minha visão e a minha OPINIÃO. Todas as verdades contidas neste texto são as minhas verdades e eu não espero que elas se apliquem a outras pessoas porque é saudável e bem comum sermos e pensarmos de maneira diferente. Segundo que esse texto ´é baseado na minha experiência como mãe, entre erros e acertos e algumas pedrinhas no caminho.

Renato é uma criança de 7 anos que é um excelente aluno e uma criança extremamente carinhoso e até tímida as vezes. Muito já se passou até chegarmos neste ponto onde ele já tem até uma certa autonomia e a jornada foi mais longa que parece. Dos seus 7 anos de vida eu passei 1 ano e meio longe e ainda me dói pensar em algumas situações mas eu não me arrependo. Eu fiz o melhor para nosso futuro naquela época e eu confio bastante, até hoje, nas mãos as quais eu o deixei na minha falta.

Acontece que eu sou uma pessoa meio eu. Eu vivo abarrotada de livro e valorizo coisas bem pontuais como o conhecimento e eventualmente vivo abarrotada de livro na cama. Eu gosto de conversar profundas, mesmo que com um menino de 7 anos, e gosto de ver como ele é quando criança. A verdade é que eu adoro o fato de que na medido do possível eu consegui deixar Renato ser criança por muito tempo, no sentido de gostar de coisas de criança e pensar de maneira menos agressiva. Eu sempre critiquei essa maturidade precoce que se faz uma verdade bem profunda entre nossas crianças e eu luto o máximo possível contra isso.

A última discussão a cerca de Renato se deu porque ele gosta de uma menina na escola. Esse fato, que a princípio eu achei bem engraçado e conversei com ele sobre inclusive, começou a tomar proporções mais sérias quando ele começou a se sentar do lado dela na escola e isso desencadeou uma reclamação na escola porque ele estava conversando demais. Eu nunca proibi Renato de gostar da colega de classe, até porque eu não tenho esse poder, mas eu conversei com ele e expliquei que crianças de 7 anos não namoram. E que é bem legal ele achar ela linda (e ele acha) e todas as coisas bonitinhas que ele pensa sobre ela, mas que na idade dele isso não poderia ser algo além disso. Porque isso não é coisa de criança.

Entre os mil comentários que eu ouvi, sejam eles homofóbicos ou machistas, muitos me deixaram bem chateada. É algo que parece bem claro na minha vida quando eu digo pra Renato que ele não pode namorar com 7 anos de idade. Isso nada tem a ver com a menina e nem com afirmação sexual de uma criança de 7 anos, tem a ver com ele não ter maturidade suficiente para entender o que é namorar e todas as coisas que isso implica. Eu sei que ele vai beijar na boca um dia e ter uma namorada, o que eu luto é para que isso aconteça no tempo dele e não numa situação onde ele se vê empurrado para algo que ele mal consegue colocar em palavras.

É realmente triste eu ter que explicar tudo isso para ADULTOS.

sozinhos na ilha

Eu terminei de ler O Senhor das Moscas ontem num frenesi absurdo em busca do final. O livro não é grande, 220 páginas, mas é deveras denso e usa da simplicidade infantil para discutir assuntos complexos ligados a humanidade de cada um. Dito isto, o ponto primordial na minha opnião é como os personagens são construídos inseridos no meio e levando em consideração suas relações. Nada nesse livro acontece por acaso e as coisas que acontecem tem resposta direta no futuro.

Em suas relações de liderança e soberania, as crianças, com diálogos simplórios e infantis questionam o poder como um todo, de maneira quase natural. Uma vez livre das amarras sociais de Londres, alguns inclusivem se veem capazes de assumir formas escabrosas e animais enquanto sobrevivem nessa ilha. Os principais elos dessa história são extremos de uma tentativa de sobrevivência onde cada qual escolhe para si o que lhe apetece e o que é importente. è impossível terminar de ler o livro sem pensar qual personagem você séria ali, mesmo que fora do circulo dominante da história.

As cenas escabrosas e vís contextualizadas transformam ações simples em bolas de neve maiores e a maldade aqui também é algo construido, mesmo que num individuo claramente predisposto a tal. O autor usa a hesitação e as ações concretas para delimitar a construção da maturidade e mostra como uma figura de poder é capaz de agir sobre as massas, mesmo que essas tenham a vil ilusão de que participaram daquilo de maneira ativa.

Por fim temos um ‘personagem principal’ que tenta, a todo custo manter a lucidez e a maneira como isso de mistura nas situações é tão perfeitamanete encaixada que eu apostaria o autor releu esse livros algumas vezes para chegar na linha tênue tornar as crianças críveis mas ao mesmo tempo amadurecidas em sua condição humano.

Um clássico que merece esse título e um título incrível para uma obra profunda também.

lernen Deutsch

Para quem me segue no instagram já sabe que eu resolvi que vou reler o Hobbit, não só reler, como reler em 3 línguas diferentes ao mesmo tempo porque eu sou maluca e a vida é feita de maluquices. Boa parte dessa ideia vem do fato de que estudar alemão é um negócio que pessoalmente me cansa. É óbvio que ao realizar os resultados eu eventualmente fico um pouco mais animada, mas, diferente do inglês, aqui os resultados são sempre os mesmo para dias trabalhosos.

Eu comecei a estudar alemão e me apaixonei pela língua alemã quando eu fui fazer meu intercâmbio lá, e desde então eu tenho melhorado bastante. Apesar de dominar a parte básica da língua, eu quero aprender a usá-la com a mesma tranquilidade que eu uso o inglês e isso requer muito pra prática e esforço que dom propriamente dito.

Dito isso eu me frustro demais às vezes com as aulas que eu ministro de inglês e alemão. No fim das contas as pessoas acreditam profundamente que aprender as coisas é uma questão de ser ILUMINADO. Que um dia eu aprendi e foi assim mesmo, no meio de uma aula eu recebi uma iluminação e comecei a usar ambas as línguas de maneira clara e concisa e eu não sei como deixar mais claro que tudo se baseia em estudo.

Ler os livros nas 3 línguas foi a maneira que eu encontrei de estudar numa rotina ainda em construção, dessa maneira eu me desprendi dos cadernos e produzo uma situação um pouco mais prazerosa. Existem outras maneiras de fazer isso? SIM. A maioria das pessoas sabe fazer? NÃO. Assim a vida segue e meus mantras para não matar alguém com a força do ódio, enquanto escuto sobre os 20 episódios de série assistidos no fim de semana em detrimentos aos exercícios propostos, permanecem firmes. Por hora.